segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Literatura de tuíter

A filha sentou-se na mesa da cozinha para fazer a lição. Havia o contraste entre o branco do caderno e o amarelado da toalha. A mãe quis pegar a tesoura da menina e enterrar bem fundo, no pescoço. Mas desistiu: era uma tesoura sem ponta. Pensou então em sentar-se ao lado da filha e ajudá-la na lição, mas como tinha pouca instrução teve medo e ficou ali observando... Por que nunca conseguia fazer aquilo que desejava? Era estranho perceber a esta altura, que sua vida, assim como Bandeira, era um acumulado de tudo que poderia ter sido e não foi... Covarde. Isso sim. Não passava de uma covarde. "Quê?" – perguntou a filha levantando os olhos. "Nada, Termina logo, filha". Vestiu seu tubinho preto, passou um batom pink, catou aquela bolsa dos anos 80 e saiu, mas sentiu-se estranha e excessivamente observada, quase à beira de uma neurose; tomou um prozac... E nisso a mãe baixou a cabeça pensando na vergonha que sentia perante a filha e decidiu que aquilo não se repetiria...

De Cris, Ma-Sagaz, Amaurido e Lia (até agora)

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